Última flor do Lácio, inculta e bela,

20151104044532Como título deste texto, lanço mão, pretensiosamente,  do primeiro verso de Língua Portuguesa, célebre poema  de um dos mais importantes poetas parnasianos inscritos na arte literária brasileira, Olavo Bilac, também reconhecido como “príncipe dos poetas brasileiros”. Para Bilac, “A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo.”. As palavras do poeta nos remetem à grandiosidade da importância que uma língua tem para o povo que a adota. Língua e pátria, para ele, interligam-se, confundem-se  e conferem identidade uma a outra numa unidade e sintonia perfeitas.

Neste dia cinco de novembro, comemora-se o dia da Língua Portuguesa, da Última flor do Lácio. Por que Última flor? Por que flor do Lácio?

Como sabemos, a nossa Língua Portuguesa foi trazida para o território brasileiro pelo colonizador português. Aqui já muitas línguas eram faladas pelos povos nativos, mas prevaleceu o Português, língua falada em Portugal, por força de circunstâncias as mais diversas. Essa língua é a Última flor do Lácio. E a Língua Portuguesa falada em Portugal, inscreve-se como uma das línguas românicas, aquelas que conservam, em sua gramática, vestígios de sua origem, a língua latina. Foi a última – última flor – a se constituir, dentre outras, como o italiano, o francês, o espanhol.

Provêm, pois, do latim, de uma variedade do latim reconhecida como latim vulgar, a variedade falada correntemente pelas pessoas comuns, diferente daquela variedade utilizada em textos escritos, nas grandes obras dos escritores da literatura latina.

E por que flor do Lácio? Bem, historicamente, os registros dão conta de que o latim foi levado para a península itálica por migrantes que se fixaram na região do Lácio onde, por volta de 753 a. C., foi fundada a cidade de Roma. Por isso, flor do Lácio.

E a nossa Língua Portuguesa, formada desse latim vulgar levado à Península Ibérica, especificamente em Portugal, cresceu e virou identidade do seu povo. E a Língua Portuguesa virou a língua de, aproximadamente, duzentos e cinquenta milhões de pessoas, mundo afora. É a oitava língua mais falada no mundo e o idioma oficial de oito países em quatro continentes: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe  e Timor Leste.

A nossa Língua Portuguesa é objeto de celebração de formas as mais diversas,  enquanto identidade cultural do povo brasileiro, cantada e representada em todas as suas formas de manifestação, especialmente nas artes, na expressão da subjetividade nas ciências …

Essa nossa Língua traduz a pluralidade cultural do seu povo, evidenciada, por exemplo, na criação do belo rap de um dos nossos ícones da composição musical Minha pátria é minha línguaFlor do Lácio Sambódromo, lusamérica latim em pó. Temos, mais uma vez uma referência à língua como objeto de identificação cultural e uma referência, também, ao nosso berço linguístico.

Vamos, então, homenagear o DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA com esse rap de Caetano Veloso, no qual encontramos referências explícitas a nossa multiculturalidade evidenciada nas variedades linguísticas.

 LÍNGUA

(Caetano Veloso)

Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(- Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.

(letras.mus. br/caetano veloso)

Texto – Professora Iveuta

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