Memorial – Professor Marcílio Flávio Rangel de Farias

Biografia

 O nome deste menino lindo é Marcílio Flávio Rangel de Farias. Em pequeno já era assim como se pode ver nos seus olhos: sério e doce; tímido e forte. Contrastes que a vida acentuou e que falam tanto do homem que não chegou a completar cinqüenta anos.

Com o que sonhava este menino hoje “suspenso na memória”? Provavelmente sonhava com o mundo que ele criou e que hoje só podemos celebrar.

Dele já se disse muitas vezes que foi grande, que foi forte, que foi bom, mas para nós interessa não esquecer com o que sonhava aquele menino. Sonhava ser professor e padre. Na juventude precisou com maior clareza seus projetos: queria ser professor de matemática e missionário e aprendeu a juntar estes lugares numa metáfora que traduz muito bem o impulso que o movia: “quero ser ponte”. Ligar, ou para dizer com maior precisão filosófica, RE-LIGAR.

Desde muito pequeno foi experimentando, o menino, as possibilidades desta motivação. Numa família de sete filhos ele foi o quarto, nem mais velho, nem mais novo, singular. Mimado pelos primeiros, cedo aprendeu a cuidar dos mais novos e logo seria o “coronel da brigada”, como costumava definir sua mãe. Carinhoso, comprometido com o bem estar de todos e muito inteligente o menino mobilizava todos para seus brinquedos e lá íamos, seus irmãos, todos, assistir aulas e missas – com a indispensável comunhão feita de miolos de pão que todos sabíamos só ele tinha autoridade para distribuir. De onde vinha a autoridade? Da conjunção de seriedade e doçura; timidez e determinação. Ponte era o que ele queria ser.

Doente desde criança, Marcílio nunca se permitiu acomodação, mas adorava ser acarinhado com os mimos de toda família. As tias “fechavam” a rua na pequena Taperoá para que ele pudesse dormir, e nunca nenhum de nós, irmãos e primos, achou injusto que ele fizesse seu lanche antes de todas as crianças da família. Com certeza porque ele recebia estes dengos sem esnobismo e sem desconsiderar os desejos daqueles que esperavam e, por isso, guardava um tanto de fome para partilhar depois. Ponte era o que ele queria ser.

Um dia ele encontrou Francisco, o santo de Assis, e se apaixonou. “Onde houver ódio que eu leve o amor; onde houver ofensa que eu leve o perdão; onde houver discórdia que eu leve a união;onde dúvidas que eu leve a fé; onde houver mentira que eu leve a verdade; onde houver desespero que eu leve a esperança; onde tristeza que eu leve alegria; onde houver trevas que eu luz…” Ponte era o que ele queria ser.

Cedo ele aprendeu que sua paixão exigia investimentos contínuos, permanentes, insistentes e, por isso, cedo começou a trabalhar. Foi professor e franciscano desde então. Para ser um professor estudou com rigor e disciplina, mas tinha os olhos sempre abertos para o que estava além dos conteúdos e dos métodos, tornou-se um leitor voraz. Tudo interessava àqueles olhos cuidadosos: todas as ciências, todas as artes, todas as pessoas…Para ser um professor- franciscano aprendeu a exercitar a tolerância e a amar a diferença e transformou este saber em “massa” para se modelar e modelar o mundo ao seu redor. Ponte foi o que ele passou a ser.

Para cumprir sua sina escolheu, lá pelo final dos anos setenta, o chão, o céu e o povo de Teresina e foi com eles que Marcílio começou a modelar um novo mundo, um mundo onde o professor da escola pública trabalhava com o mesmo afinco que o professor da escola particular. Se faltava giz e papel, ele somava; se sobrava recursos ele potencializava-os. Bom matemático aquele franciscano! Nunca nenhuma desatenção, nunca nenhum descompromisso – não com seus alunos! E foi assim, no “miúdo” do cotidiano, que ele foi se constituindo esteio e suporte. Ponte foi o que ele passou a ser.

Muitas e muitas vezes o corpo fragilizado parecia que ia impedir a realização do sonho, mas quem podia com aquele menino? Ele driblava a morte e insistia em viver! Viver para continuar sonhando. Viver para fazer de cada vitória contra a morte uma luta para dilatar e expandir sua busca pela excelência. Mas que excelência? Aquela que ele sabia partilha, conquista e renovação. Foi assim que foram se consolidando seus projetos e suas muitas parcerias, tão plurais quanto indispensáveis. Tão indispensáveis quanto provocantes. Ponte foi o que ele passou a ser.

No início dos anos oitenta, as irmãs Missionárias de Jesus Crucificado lhe propuseram uma missão: o Instituto Dom Barreto. Fabuloso desafio para o menino sonhador! Agora ele tinha nas mãos, para misturar à sua “massa”, o cimento de uma tradição cujos “elementos” constituintes eram a ética, a caridade e a doação. Cimento? Fermento! Fermento que alimentou muitos outros e, particularmente, as irmãs do professor Marcílio: Stella, Márcia, Bernadete. Depois veio o resto da família, Sebastião, Euzir e Eustáquio e, muito recentemente, Socorro. A este coletivo familiar se acoplaram muitos outros, de “dentro” e de “fora”, de “perto” e “longe”. Ponte era o que ele continuava a ser.

Ali também pelo começo dos oitenta, Natercia Damasceno provocou o amor e deste encontro nasceram duas meninas, Camila e Marcela. As meninas do professor, do missionário, do sonhador Marcílio. Com elas ele aprendeu que o amor já pode nascer sem limites, embora tenha também aprendido que este amor sem restrições, a exemplo de todos os outros, carece de cuidado, de investimentos e de deslocamentos. Ponte era o que ele precisava ser.

Ao amor que Marcílio dedicou a Camila e a Marcela ele incorporou muitos outros, também seus filhos. Isto, porque como já foi dito em um outro lugar, Marcílio não amava simplesmente, ele amava incondicionalmente, radicalmente, sem aceitar os limites que seu corpo ou sua alma tentavam lhe impor. Amava suas crianças com uma ternura e um comprometimento realmente admiráveis. Um amor tão exigente quanto plural. Ponte era o que ele precisava ser.

Foi para celebrar este homem e seus muitos amores que nos dispusemos a contar aqui um pouco da sua história, ainda que correndo o risco de,assim, violar o pudor e a discrição que sempre pautaram sua conduta. Nosso amparo é a certeza de que esta exposição possa ajudar a criar outras pontes e a nos inspirar o desafio de seremos, nós também, um pouco pontes.

Além disso, quase tudo que aqui foi dito já é de domínio público. Afinal, é provável que muitos guardem na memória a lembrança de vê-lo como agora, exposto. Ou seja, beijando a cabeça de uma das suas muitas crianças com delicadeza e com um incrível despojamento. Também é provável que muitos de nós já tenha tido notícias de sua cólera ou seu desespero frente a uma criança ferida ou desamparada. Nesses momentos, seu olho azul resplandecia atingindo todos ao seu redor. Era assim mesmo radical o professor Marcílio! Para ele, tudo aquilo que se referia às suas crianças era de uma outra ordem. Falo da beleza, da alegria, do amor, mas também da fome, do desamor, e da dor. Na sua defesa ele foi incansável; no seu cuidado, intransigente. Nunca nenhuma hesitação: rigidez inquebrantável numa arquitetura feita de fogo e ternura. Ponte é o que ele foi; ponte é o que ele sempre quis ser.

Acho que é daí que  nascem, paradoxalmente, sua calma e sua impaciência; seu rigor e sua doçura, contrastes que a “lenda” se esmerou em ressaltar. Para além da lenda é preciso pensar na impressionante constância de propósitos deste menino que gostava de sonhar com um mundo onde todas as crianças pudessem ter uma vida feita de sim. Sim para a alegria, sim para o amor, sim para o saber, sim para uma vida digna e plena de possibilidades. SIM! SIM! SIM!

Maria do Socorro Rangel

Teresina, 16 de agosto de 2006

(véspera do dia que o prof. Marcílio completaria 50 anos)