Dombarretano João Gabriel Teixeira Lima, aprovado em três vestibulares, escolhe Linguística na UNICAMP

 O amor pela leitura e escrita inspiraram o aluno João Gabriel Teixeira Lima, do Instituto Dom Barreto, na escolha e aprovação em Línguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).  João Gabriel também foi aprovado em mais duas grandes universidades do país: a Universidade de São Paulo (USP) e a Federal de Minas Gerais (UFMG), ambas para o curso de Letras.

Perguntamos por que tanto amor pela arte de ler. Para João Gabriel é bem fácil explicar: “A leitura é a minha base para aprender sobre as pessoas, o mundo e sobre mim mesmo. Ferreira Gullar escreveu que “a arte existe porque a vida não basta”, então acho que a maior influência da leitura para mim é saber que a realidade pode ser muito mais do que aquilo que se está vendo no presente, que as coisas podem ser muito mais complexas ou muito mais simples do que nós imaginamos, e essa pluralidade de perspectivas é algo pelo qual prezo muito e que a leitura é capaz de propiciar”, explicou o jovem.

João optou por Linguística porque seu maior interesse é estudar os processos e as realidades da linguagem. “Poderia ter feito a escolha por Estudos Literários, mas cheguei à conclusão de que investigar a linguagem era uma ideia que me atraia muito mais, em âmbito acadêmico, do que o estudo da literatura”, afirmou o aluno que considera a área extremamente ampla, com linhas de pesquisa interessantes e que atuam em diferentes ramos. O dombarretano falou também porque escolheu a Unicamp: “A Unicamp oferece um bacharelado em Linguística mais voltado para meu interesse, e a cidade de Campinas é maravilhosa para estudantes da faculdade. A escolha por um caminho específico não é fácil no início, mas eu gostaria de fazer pós-graduação e lecionar também, essa é uma ideia da qual gosto muito”.

Ao ser questionado sobre quais livros ele que considerou mais marcantes na corrida pela vaga à Universidade, João fez questão de citar “Cem anos de solidão”, de Garcia Márquez e “O livro sobre nada”, de Manoel de Barros.  Logo em seguida, complementou: “A obra mais surpreendente dessas bibliografias foi História do cerco de Lisboa, de José Saramago, indicada pela Unicamp.”

O Instituto Dom Barreto valoriza a leitura, pois considera a base da Educação Infantil e uma ponte para todos os outros Ensinos. A diretora da Escola, professora Stela Rangel, descreveu o que sentiu ao saber da aprovação e da escolha do curso de João: “Orgulho! É tão difícil, hoje, as pessoas quererem ser professor. Ainda mais ser professor de Linguística, Linguagem, da área de Letras como, ele escolheu. Me senti muito orgulhosa, porque vemos os alunos escolhendo outros cursos. Isso mostra que podemos ter esperança para continuar tendo bons professores”, explicou Stela Rangel.

Pouca idade, com 18 anos, mas muitas leituras na bagagem. A professora de Redação do Ensino Médio, Keula Araújo, diz ser uma grande admiradora do dombarretano e fez um breve relato sobre o aluno. “Apesar do ritmo puxado da 3ª Série do Ensino Médio, João estava sempre com um livro na mão. Leu toda a bibliografia indicada e pela FUVEST e UNICAMP, além de outros clássicos, como “Esperando Godot” e “O Som e a Fúria”, que são livros bem difíceis. Para um leitor assim, a inspiração é o tempo, pois há um mundo de imagens, emoções e sensibilidade dentro dele.”

E quanta sensibilidade! Afinal, nem só de leitura vive João. O aluno, além de ser um apaixonado nato por leitura, também faz belíssimas e envolventes criações textuais. “Eu costumo escrever mais poesia do que prosa, mas, às vezes, me aventuro a escrever contos. Esse conto, aqui publicado, trata do processo de criação artística e da genuína necessidade de criar e consumir arte”, revela João.

Nesse conto, “me inspirei um pouco na história do pintor francês Paul Gauguin. Também escrevo poemas, mas não acho que ainda desenvolvi minha poesia o suficiente para conseguir fazer algo que eu mesmo considere bom, procuro sempre me aperfeiçoar”, concluiu o dombarretano.

Abaixo, você pode conferir o conto escrito por João Gabriel Teixeira Lima.

SELVAGEM

 Verde e calor. Um silêncio tão verdadeiro que impunha sua lei ao ar que descansava, ainda que as notas do canto dos pássaros corressem por ele, disfarçadas. O Selvagem ia pela floresta, seguia um caminho que eram muitos, desconhecia todos. Guiava-se pelo instinto, ponderar os passos era inimigo de seu ofício de sobrevivência. Estacou. Aqui.

A visão da cachoeira e do lago em que ela se depositava emergira do adensamento das árvores e o céu, enfim, se mostrava, insinuando seu infinito. Aqui, pressentiu. Pôs-se, então, a armar suas armadilhas, já imaginando as feições que teriam os produtos de sua captura. Nas copas das árvores, espíritos observavam: não pareciam estar sendo invocados, não era noite e não saltavam o fogo e o som dos tambores. Que desconhecida atração os trazia, então, até aquela precária forma humana?

Sentou-se. Tateava com todos os sentidos o lago a sua frente, a chuva perene que era a cachoeira. Imóvel, atento. Os espíritos consultavam sua ancestralidade, mas não havia resposta sobre a natureza daquele ritual. Seriam bênçãos ou pragas que deveriam dirigir àquele nunca antes visto?

De repente, uma agitação e o entendimento. Tudo era comunhão: o verde, o calor, o Selvagem, os espíritos, a natureza em sua totalidade mística e factual. Na armadilha de cavalete e tela, ele capturava a própria floresta, o organismo, seu cerne, sangue e fibra. Havia na dança dos pincéis uma sacralidade em forma primordial, os espíritos dançavam cores primárias ao seu redor.

Passado o furor, recolheu-se para sua cabana, satisfeito. Havia pintado sua sobrevivência para alguns dias, pelo menos.

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