GINCANA CULTURAL TERESINA, MEU AMOR 2019: #SextaFeiraparaTereSINA

#SextaFeiraPARATereSINA. O tema da XXXVI Gincana Cultural “Teresina, Meu amor 2019” foi lançado nesta segunda-feira, 1/7, deixando os gincaneiros com a emoção à flor da pele. Os estudantes foram embalados pelo som dos tambores e dos gritos de guerra clássicos que animam o período pré-gincana e que trazem mais vida ao dia 16 de agosto. Confira abaixo o texto de lançamento do tema.

Texto de Abertura da XXXVI GINCANA CULTURAL TERESINA, MEU AMOR: #SextaFeiraparaTereSINA

Estamos a um click de atravessarmos o Atlântico. O que diria Colombo se soubesse que estamos a um passo do Velho Mundo? Colonizadores do quê? De quem? O que diríamos nós? Talvez disséssemos como Milton Nascimento:

“Eu sou atlântica dor

Plantada no lado do sul

De um planeta que vê

E que é visto azul

 

Mas essa primeira impressão

Esse planeta blue

Não é a visão mais real

Além de cor, blue é também muito triste

Pode ser o lado nu, o lado pra lá de cru

O lado escuro do azul

 

Eu sou um homem comum

Eu sou um homem do sol

Eu sou African man

Um South American man

[…]

Eu sou um homem qualquer

Estou querendo saber

Se dá pra gente viver

Se dá pra sobreviver

 

Quero saber de coração

Se nossa humanidade

E este planeta vão prosseguir

 

Quem sabe a Terra segue o seu destino

Bola de menino pra sempre azul

Quem sabe o homem mata o lobo homem

E olha o olhar do homem que é seu igual

 

Quem sabe a festa chega a floresta

E o homem aceita a mata e o animal

Quem sabe a riqueza?

E toda a beleza estará nas mesas da terra do sul[1]

 

A largos passos, ocupamos e produzimos; construímos máquinas e desenvolvemos tecnologias; fomos à lua e adentramos nas profundezas do mar; descobrimos que, desde o macro ao microscópico, somos rodeados por universos e estrelas em todas as galáxias. Nestes quinhentos e tantos anos, presenciamos, descrevemos e catalogamos milhões de espécies da flora e da fauna e não chegamos sequer a conhecer um décimo de todo o potencial deste planeta. Hoje a humanidade da qual fazemos parte reconhece que, por mais primorosa que seja a inteligência de que somos dotados, ainda estamos longe de compreendermos a totalidade das infinitas possibilidades e da expressiva biodiversidade que nos constitui.

Exploradores? Construtores? Predadores. E tão vorazes que nem a fome, nem as guerras, nem a seca, nem a profunda desigualdade nos fizeram parar e mudar. No entanto, desde a década de 60, intensificou-se a percepção de que a humanidade caminhava, de forma acelerada, para o esgotamento de recursos. Rachel Canson com seu célebre “Primavera Silenciosa” representou um marco dentro do movimento ambientalista que insurgia. Através do seu livro denunciava os prejuízos causados pela ação desordenada do homem sobre o meio ambiente. Desde então, as pautas ambientais vieram se intensificando, diversas conferências internacionais envolvendo representações de todos os 193 países do mundo, além de inúmeros grupos das sociedades civis organizadas e também de empreendimentos particulares vêm endossando os compromissos firmados em instrumentos de planejamento, que visam conciliar métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica, além de ratificarem propostas de mudanças globais, dando-se destaque inclusive às políticas voltadas à erradicação da pobreza e da fome.

Seria importante relembrar, para não passarmos batido, que embora advindo do imperativo da nossa civilização cientificista, com sua necessidade de comprovações, esses estudos ajudam a fundamentar os excessos causados pela ação antrópica na natureza, entretanto, nunca faltaram exemplos salutares sobre a convivência harmônica do homem com o meio ambiente. Esses estudos poderiam e podem até servir de base para o florescimento de uma convivência muito mais harmônica e menos danosa, como, por exemplo, aqueles vividos nas comunidades tradicionais, entre elas as nossas indígenas e quilombolas, que até hoje lutam contra atos, palavras e pensamentos depredatórios e se mantêm, apesar das avalanches de ganância e de imediatismo, buscando permanecer em equilíbrio com a natureza na qual se inserem.  Poderíamos citar muitos outros grupos e pessoas que compreendem e incorporam como modo de vida a simbiose homem/natureza, mas a hora é de esperar, de esperançar: o que diz você, o que digo eu, o que dizemos nós dombarretanos? Sabemos o quanto as suas vozes, as nossas vozes importam, que temos muito a dizer, que precisamos aprender a ouvir.

Do Velho Mundo, Greta, uma mirrada menina sueca, falou tão forte, que encantou e motivou muitas pessoas. Uma voz de criança que atravessou o Atlântico e nos tocou. A nós, que estamos acostumados a nos encantar com a sabedoria das crianças e conhecemos bem a força delas. Para quem não a conhece, Greta Thunberg, ativista ambiental, 16 anos, que no dia 20 de agosto de 2018, faltou à escola e seguiu sozinha para frente do prédio do Parlamento Sueco, munida de panfletos sobre o aquecimento global e dados científicos, decidida a chamar atenção dos políticos do seu país de origem, segurando um cartaz que dizia, em sueco, “greve escolar pelo clima”. Seu protesto ganhou apoio e alguns meses depois, em março deste ano, aquela voz tímida da menina solitária já representava grande expressividade, chegando, com a hashtag #SextaParaoFuturo (#FridaysForFuture), a movimentar um número extremamente significativo de adeptos à causa e levando, em março deste ano, um milhão e meio de estudantes às ruas, em mais de 100 países, em plena sexta-feira, para lutarem pelas causas ambientais, por mudanças e pela ratificação dos acordos internacionais.

A jovem tímida também discursou na Conferência do Clima da ONU, a COP 24, que ocorreu na Polônia, no último dezembro. Assertiva, Greta criticou o fracasso das Nações na proteção das futuras gerações:

“No ano de 2078, vou celebrar meu 75º aniversário. Se eu tiver filhos, talvez eles passarão esse dia comigo. Talvez eles perguntem sobre vocês, talvez eles perguntem por que vocês não fizeram nada enquanto ainda havia tempo para agir. Vocês dizem que amam seus filhos acima de todo o resto, mesmo assim estão roubando o futuro deles bem na frente de seus olhos. Até vocês focarem no que precisa ser feito ao invés do que é politicamente possível, não há esperança”.

Greta se tornou uma voz influente e incômoda, mas nunca esteve só. Aqui, bem perto de nós, a atlântica dor plantada há séculos do lado sul, atravessa e rasga e deveria incendiar nossos corações, incendeia? Aqui, todos os dias, os sobreviventes curumins cantam, como já cantaram com Milton, em Txai, versos de dúvida, de desesperança:

“Que dirá a seu filho, o pai?

Que dirá para a filha, a mãe?

Que virá dessa escuridão?

Será bem, será maldição?

Será Deus ou será mortal?

Nos trará arma ou missal?

O punhal fere o coração

O veneno morde a canção

Quero saber, mas sem matar

O que já existe ‘em mim[2]

 

Na nossa tristereSINA microações dizem, todos os dias, que não, não estamos sós. Escutem. Escutemos, por exemplo, um outro e anterior chamamento #OcupaPraça, que salvou 97 árvores e uma comunidade inteira, daquelas que gostam de sentar na calçada e conversar. Tão nós.  Tão Teresina. Então, escutem os murmúrios dos velhos e os gritos das crianças e nesta XXXVI edição da Gincana Teresina, Meu amor: #SextaFeiraparaTereSINA, façamos nossa parte. Façamos nossa parte por este cantinho que é nosso e também é do universo. Façamos de Teresina, mais uma vez, uma cidade nossa, e façamos isso valorizando as mínimas e grandes atitudes, com o pensamento firme e focado, que germina, com força quântica, no coração de todos os que como eu e vocês temos medo e, como não há outra saída, temos também esperança[3].

Que nossas mentes e corações de estudantes fervam de alegria por que mais uma vez estamos sendo convocados a olhar para nós mesmos: “existirmos, a que será que se destina?”. Sem esquecer que o futuro já chegou e a rosa pequenina está na palma de nossa mão. Afinal, como diz Eliane Brum:

“O futuro precisa também se desinventar como conceito de futuro para voltar a ser imaginado. Ou o futuro precisa se descolar dos conceitos hegemônicos de futuro para se abrir a outras possibilidades de ser pensado como futuro. Talvez não tenha nem mesmo o nome de futuro, mas outros. É necessário se desgarrar das matrizes de pensamento europeias e das estruturas lógicas estabelecidas pelos inventores da civilização que nos trouxe até esse momento limite. Esse futuro desinventado de futuro está sendo tecido por experiências de minorias vindas de outros territórios cosmopolíticos. Entre tantas más notícias, há uma ótima: por caminhos surpreendentes, a nova geração de suecas está vindo como índio”.

[1] Trecho retirado de “Planeta Blue na estrada do Sol”, música de Milton Nascimento, álbum “Planeta Blue na estrada do Sol”

[2] Trecho da música “Que virá dessa escuridão”, de Milton Nascimento, álbum Txai.

[3] Marilena Chauí. Sobre o medo. In O sentido das paixões. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

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