A luta de quem necessita de acessibilidade!

vitor 8
Lilian e Vitor

Na terceira e última reportagem, de uma série de entrevistas com pais de filhos que estudam no IDB, e que têm alguma dificuldade de locomoção e mobilidade, vamos conhecer a história de Lilian Façanha Da Silva Amorim, mãe do Vitor Gabriel Façanha Amorim, aluno do Infantil II. A série faz parte da “Campanha IDB de Acessibilidade, Paz e Bem no Trânsito”.

ENTREVISTA

IDB – Nos conte como o Vitor se tornou uma criança que necessita de acessibilidade.

L – Vitor Gabriel nasceu prematuro de 32 semanas devido a Aminiorrexe Prematura (perda de líquido amniótico) e apresentou lesão cerebral tipo Leucomalácia Periventricular. Esta é uma lesão permanente, porém não progressiva que causa distúrbio do movimento, equilíbrio e postura. A lesão do Vitor é do tipo Diparesia Espástica que causa aumento do tônus muscular, mais em membros inferiores, com rigidez dos movimentos e 80% destas pessoas têm inteligência normal ou próxima do normal, uma curiosidade frequente das pessoas. Esta lesão também acometeu a visão dele, que só enxerga 50% da visão normal. Ele foi um bebê que nunca sugou o seio materno e a partir dos seis meses de idade, quando ele não sentou sozinho iniciaram as terapias: fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e musicoterapia. Hoje, ele faz terapias todos os dias, menos no domingo, uma rotina bem ativa. Faz acompanhamento em São Paulo com Fisiatra, Ortopedista e Oftalmologista, além de aplicações de botox em membros inferiores, na tentativa de minimizar a espasticidade. Vitor Gabriel tem necessidade de acessibilidade e acompanhante em todos os momentos, pois se locomove com ajuda do andador e de terceiros. Hoje, ele está treinando o uso da muleta, apesar de ainda ser muito cansativo para ele. A cadeira de rodas ainda não foi sugerida pelas fisioterapeutas, mas será uma necessidade em um futuro próximo quando for necessário percorrer longas distâncias.

IDB – Como o Vitor lida com a deficiência dele?

L – Vitor Gabriel sempre foi uma criança muito ativa e determinada, sempre aceitou bem as terapias e desafios que são propostos a ele. Gosta muito de brincar, participar de tudo, tem autoestima elevada. É companheiro, emotivo, querido por todos e tem um senso de percepção impressionante. Acima de tudo, ama viver e é muito feliz, apesar das limitações físicas. Ele mesmo diz que é deficiente, mas não se acha diferente, porque ele faz tudo que as outras crianças fazem, apenas não caminha sozinho. Trabalhamos e explicamos muito as limitações físicas dele, mas Vitinho sempre diz que é capaz, nunca disse que iria desistir de tentar melhorar, nem nós.

vitor 3
Vitor com o pai e os irmãos

IDB – Quais as atividades preferidas do Vitor?

L – A maior felicidade dele é jogar bola correndo no andador e chegar em casa e brincar de UFC com o pai e o irmão mais velho,Vinícius. Ele é uma criança muito prestativa, adora servir, mesmo com suas limitações, diferente de algumas pessoas que tem um físico perfeito e uma mente doente, doente de falta de bondade e amor no coração. Ele adora ir ao supermercado, é meu ajudante, como ele diz. Pega as mercadorias, bota no carrinho, passa tudo no caixa e quando chega em casa ainda bota os sacos no andador e ajuda levar tudo para a cozinha. Só para quando acaba de guardar tudo. Um perfeito e maravilhoso ajudante, um verdadeiro rapaz. Quando penso, às vezes, em reclamar da vida, penso nele e só agradeço pelo exemplo diário de luta, pela superação que este menino grande nos transmite todos os minutos de nossas vidas.

IDB – Que tipo de dificuldade vocês encontram em Teresina, que atrapalham o deslocamento do Vitor?

L – As dificuldades de mobilização do Vitor, assim como de outas pessoas com necessidades especiais, são as calçadas sem acessibilidade, não só falta de rampas, como também desnível entre calçadas ou até mesmo falta de calçadas. Além disso, temos falta ou pouca quantidade de cadeira de rodas em locais públicos. Enquanto família, nos esforçamos em procurar dar o máximo de independência a ele, através do uso do andador ou da muleta, procurando sempre passar confiança a ele. Nossa casa ainda não é adaptada, mas estamos programando uma reforma para adaptá-la com barras, banheiro adaptado e plataforma de acesso ao andar superior.

IDB – Vitor costuma reagir diante da falta de respeito de algumas pessoas?

L – Sim. Ele fica triste e, às vezes, sem entender a falta de respeito de algumas pessoas em relação à deficiência física dele e também em relação ao respeito à acessibilidade, porque na cabecinha dele o certo é o respeito às vagas reservadas a deficientes.

vitor 7IDB – E o acesso à escola, como acontece?

L – O acesso do Vitinho à escola é sempre com os pais e a acompanhante, Andressa, nas vagas reservadas a deficientes. Sempre contamos com a ajuda dos rapazes da portaria, dos rapazes do algodão doce ou do picolé, até mesmo dos fotógrafos que ficam ali na porta, sempre muito prestativos e com muito carinho e respeito ao Vitinho. As pessoas que prejudicam o acesso dele à escola são as pessoas que ocupam indevidamente as vagas reservadas aos deficientes físicos e aquelas pessoas que passam correndo, faltando derrubar meu filho. Recebemos recomendação de subir e descer pela plataforma, mas Vitinho, sempre querendo ser independente, fica muito feliz em subir a escada e lá, então, faltam passar por cima dele, apesar dele se esforçar em subir o mais rápido que ele pode.

IDB – Que desculpas costumam ouvir de quem desobedece a lei de respeito à acessibilidade?

L – “Só um minuto, eu também preciso”, “é porque estou atrasada”, “tenho filho pequeno também”, “mas é bom ter uma vaguinha bem na porta da escola”. Se eu pudesse diria a estas pessoas: “Você tem certeza que esta vaga é sua? Agradeça a Deus, todos os minutos, que você não precisa desta vaga e tomara que você nunca precise”.

IDB – Que recursos vocês já usaram para amenizar o problema?vitor 4

L – Usei poucas vezes o recurso do diálogo e bilhetes, mas, na verdade, as pessoas que desrespeitam ou o deficiente físico ou qualquer outra forma de desrespeito ao ser humano, elas no fundo sabem que estão erradas. A vida ensina, mais cedo ou mais tarde. Nunca esqueço uma vez que era uma festinha no Dom Barreto, estacionei, desci do carro caminhando e uma senhora, que também era deficiente, quase me bate porque eu tinha ocupado a vaga, que era para deficiente. Deixei ela falar, julgar, e em poucos minutos vinha a babá do Vitinho com ele no andador. Quando ela viu me pediu mil desculpas.

IDB – O que, na sua opinião, poderia ser feito para mudar esta situação?

20150429063449L – Uma educação constante em relação aos princípios de respeito às diferenças e mais estímulos a cidadania são essenciais, na escola e, principalmente, na família. Como uma criança pode respeitar um deficiente físico se os pais são os primeiros a chamar os deficientes de coitadinhos? Os pais deveriam dizer: “olha meu filho que criança feliz, apesar das dificuldades físicas dele”. E não ficar só prestando atenção no olhinho tortinho dele, ou perninha não coordenada ou na órtese que ele usa. Os deficientes físicos têm um corpo, mas, principalmente, eles têm uma alma, cheia de vida, ternura, felicidade e esperança, sempre com Deus no coração. Tenho certeza que na sala do Vitor as crianças serão cidadãos de verdade, porque todos conservam os princípios de cuidado, proteção e respeito ao próximo.

IDB – Por fim, um recado do Vitor Gabriel.

V – Vocês que não são deficientes e pegam as vagas dos deficientes, vocês estão errados.

vitor 6
Vitor na praia com os irmãos

 

vitor 9
Vitor no andador perto do seu ídolo, Neymar

Paz e Bem!